Orlando Garcia da Silva nasceu no Engenho de dentro, subúrbio do Rio de Janeiro em 03 de outubro de 1915. O pai, José Celestino da Silva, tocou violão em uma das formações dos 8 batutas, não foi com eles em excursão para a França e Argentina por causa dos três filhos pequenos. Veio a falecer de gripe espanhola quando Orlando tinha 3 anos. O que explica em parte o interesse de Orlando pela música. Embora fosse de uma família muito pobre e ele mesmo disse em entrevista ao Programa MPB ESPECIAL da TV Tupi em 1973, não podia ter um rádio, então aprendia as letras das músicas no rádio do vizinho.
O contexto social das primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro e a influência circunstancial em que se deu o aparecimento da música genuinamente brasileira, foi contado por José Ramos Tinhorão da seguinte maneira:
"...Assim como a abolição da escravidão, em 1888 havia permitido o início das ondas migratórias de trabalhadores negros do campo para a cidade, o Rio de Janeiro – Capital da República do Brasil desde 1889, com o título de distrito federal – transformou-se nos últimos anos do século XIX, no centro de convergência de maior número dessas migrações internas. E como grande parte dos ex-escravos e seus descendentes trabalhadores do campo ajudariam a dobrar a população em vinte e oito anos, continuavam a ser os baianos antes trazidos para o vale do Paraíba com a expansão da cultura do café, formadores de tais comunidades onde viria surgir no Rio, as duas maiores criações coletivas do povo miúdo do Brasil: O carnaval de rua dos ranchos e suas marchas e o samba.
"mulato claro, trajando-se modestamente, o tipo exato do carioca suburbano da época, ele fazia "o modelo do antimodelo de artista e de grande ídolo, ainda mais puxando de uma perna", nas palavras de seu biógrafo Jonas Vieira. Orlando sofreu um acidente aos dezesseis anos de idade, tentou tomar um bonde em movimento e sofreu um acidente, o que provocou o amputamento de alguns dedos do pé esquerdo, ficou internado durante quatro meses e para aliviar a dor, os médicos lhe aplicavam morfina.
Saberíamos mais tarde que a morfina seria um dos fatores que tornara muito curta a sua brilhante carreira de cantor, que durou apenas sete anos.
Após ser ouvido pelo compositor Bororó em 1934 no corredor da Rádio Cajuti, este o apresenta ao cantor Francisco Alves, que o convida para fazer coro nas gravações das marchas que seriam usadas no carnaval de 1935. A valsa lágrimas de Catulo, foi o primeiro repertório gravado por Orlando e que na sua voz teria se consolidado como um produto de cultura de massa, assim como ele, Orlando, também fora o primeiro ídolo de massa produzido pela música popular brasileira.
A origem das marchas, na época denominadas marcha rancho, se deu quando no início do século XX, as pessoas se reuniam em casas chamadas ranchos, que tinham nomes diferentes para cantarem chulas e dali saiam com seus cordões pelas ruas para dançar o carnaval, o que deu origem às escolas de samba. Sobre isso Tinhorão diz o seguinte:
"Todos estes grupos tinham música própria, tradicional que não se confundia e ainda na década de 1960 os foliões mais velhos como o compositor Getúlio Marinho (Salvador – BA, 1989 – Rio de Janeiro, RJ, 1964) se orgulhavam de conhecer as distinções: "Haviam três tipos de chulas: a chula do palhaço de circo; a chula do palhaço de guizo, que saia em cordão de velho cantando ao som da comissão, pandeiro grande e tamborim; a chula raiada, que ia dar o samba raiado ou samba do partido alto, a base de flauta, violão, cavaquinho, ritmo de prato raspado com faca, pandeiro e palmas..."
"...Em todo caso, as orquestras de rancho acabariam por desenvolver afinal uma nova forma de marcha adaptado à lentidão dos desfiles e que trabalhadas a partir de 1930 por compositores da era dos discos e do rádio, dariam origem à chamada marcha rancho. Gênero de música urbana, este, aliás, que embora produzido para a exploração comercial por compositores profissionais, não conseguiria esconder sua origem folclórica e popular. Em 1939, quando o flautista Benedito Lacerda e seu pandeiro, o baiano Humberto Porto, lançaram em disco pela voz de Orlando Silva a marcha "jardineira" o sucesso da música desencadeou o clamor de um escândalo. "A jardineira"que os dois espertos assinavam, era, havia muito, conhecida na Bahia, e, e, 1899 já fora cantada inclusive no Rio de Janeiro pelos componentes do ranço A Jardineira, formado entre outros pelo pioneiro Hilário Jovino Ferreira próximo ao morro da providência.
Dado o período histórico que viveu o cantor Orlando Silva, podemos compreender um pouco a estética e o porque do repertório cantado por ele, que foi basicamente valsas, marchas, maxixes e sambas-choro. Foi contemporâneo de grandes cantores e arranjadores do rádio que dentre eles estão: Ismael Silva, Sinhô, Lupicicínio Rodrigues, Fernando Lobo, Braguinha, Benedito Lacerda, Custódio Mesquita, Ari Barroso, Lamartine Babo, Geraldo Pereira, Herivelto Martins, Ataulfo Alves, Radamés Gnatálli, Francisco Alves, Gilberto Alves, Mario Reis, Silvio Caldas, Ciro Monteiro, Newton Teixeira, Dalva de Oliveira, Helena de Lima, Araci de Almeida, Roberto Paiva, Nora Ney, Linda Batista, Lúcio Alves, Dóris Monteiro.
Ao período de 1937 a 1942, chamou-se época de ouro, quando os talentos revelados no início da década atingem o auge de suas carreiras. É nessa fase que desenvolve no país um acentuado culto à voz, talvez, relexo do grande sucesso de Orlando Silva que em poucos anos de atividades, apesar de ser, segundo Carlos Rennó, um anti modelo de ídolo, tornara-se o Cantor das Multidões, como fora chamado até o fim.
"Suas interpretações se tornaram famosas pelo fraseado flexível, pela emissão macia e pela dicção cristalina. Combinando perfeitamente beleza e potência vocal, seu canto, de uma suavidade natural, era sóbrio e viril, por um lado, ao mesmo tempo que ornado, delicado e sutil por outro.
Orlando Silva possuía uma notável capacidade de controle e de modulação da voz. Numa mesma canção, podia variá-las de agudos com falsetes a tons bastante graves. Mas não tinha apenas afinação: exibia também muita bossa. Seu sentido rítmico era admirável, e ele não respeita a mesma divisão ao retornar a primeira parte, introduzindo-lhe sempre alterações. O cantor emprestava sentimento e emoção ‘a interpretação de cada música, sem contudo deixar que seu canto transformasse em algo derramado. A par disso deu nova dimensão ao microfone, demostrando uma dimensão exata de seu uso – um fator importante numa época sem sofisticação tecnológica aplicada ao som. Para tudo isso Orlando Silva demonstrou a arte de cantar entyre nós, lançando um estilo único e original que se firmou como uma escola, servindo de modelo e referência a gerações subsequentes de cantores."
Orlando Silva é auto didata em canto, nunca chegou a estudar. Sobre isso, ele falou em entrevista ao MPB ESPECIAL da TV Tupi em 1973. Sua carreira teve seu auge no período de 1935 a 1942. Segundo informação publicada no site www.uol.com.br/orlandosilva, em 1942 o cantor teve um problema nos dente que se chama Gengivite Ulcerativa Necrosante Aguda, mais conhecida como Piorréia. O tratamento por Ter sido muito doloroso, para conter a dor, ele teria voltado ao uso da morfina que além de causar dependência, ataca os nervos periféricos, entre os quais as pregas vocais. Mesmo com o tratamento, Orlando Silva precisou extrair os dentes da arcada superior, o que também contribuiu para para afetar sua voz.
Orlando Silva morreu às 16h45 do dia 07 de agosto de 1978, com 63 anos, vítima de um acidente cardiovascular isquêmico, no hospital Gaffé Guinle, Bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.
Por Liebe Lima
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