Pular para o conteúdo principal

Musica vocal

A música vocal tivera sua maior expressão na Idade Média em música sacra, com peças para serem executadas a cappella, geralmente contrapontísticas, com muita imitação, com vozes entrelaçadas, de modo a criar um fluxo contínuo, sem remendos; outras peças acompanhadas por instrumentos, tais como peças policorais em estilo antifônico ( estéreo ), com muitos contrastes musicais. No Renascimento esta expressão começa a ter seu lugar fora da igreja, expressando outras emoções e estados de espírito. Entre os muitos gêneros de canções, estão a frótola e o madrigal italiano, o Lied alemão, o Villancico espanhol e a canção francesa.
Houveram três tipos de madrigais na Inglaterra, o madrigal tradicional, o balé e o ayre. O tradicional é reconhecido por não ter refrão, é uma composição muito contrapontística e faz uso da imitação, as vozes tem a mesma importância e o compositor ilustra musicalmente o significado das palavras. Um dos maiores compositores de madrigais elisabetanos foi Thomas Weelkes. Quanto ao balet, era por vezes dançado e cantado e dançado, seu estilo apresenta um ritmo bem acentuado e a tessitura em geral é trabalhada em acordes. Sua característica principal é o refrão fa-la-la que aparece no fim de cada parte.
O terceiro tipo é o ayre ou canção, que era executado de várias maneiras: um solo vocal ou com acompanhamento de alaúde e outros instrumentos como as violas, ou com todas as partes executadas por voz. O maior compositor de ayres foi John Dowland, também famoso por ser exímio alaudista. Neste período a música ainda se baseia em modos, mas estes são gradualmente tratados com maior liberdade, conforme o número de "acidentes"introduzidos.
No período Barroco a música vocal deixa de ser a expressão musical principal, mas permanece presente principalmente na igreja. Isso podemos observar nos corais escritos Johann Sebastian Bach. Porém seu uso entrou em declínio maior por ocasião do surgimento das obras orquestrais que foram sendo aprimoradas por Mozart no classicismo e Bethoven no romantismo e assim sucessivamente.
O Brasil sofrera influências de Portugal e a música teve na igreja o seu espaço de expressão, como acontecera em todo o ocidente. A princípio o compositor de maior prestígio foi o Padre Maurício Nunes Garcia e ao longo do tempo também a música profana passa a ser praticada, desenvolvendo estilos musicais vindos da Europa, como a polca e a valsa, estilos muito usados por importantes compositores brasileiros como Ernesto Nazareh e Chiquinha Gonzaga. A música coral estava presente principalmente nas congregações religiosas, permanecendo assim até o final do Século XIX e Início do Século XX.
O uso tradicional da voz desde a Idade Média e através dos tempos em várias culturas, seria em razão do instrumento estar pronto e proporcionar infinitas possibilidades de entoação melódica e rítmica sem tornar necessária a construção de instrumentos.

A origem do nacionalismo

No século XIX, as idéias iluministas pregavam a igualdade de direitos entre os homens, os burgueses, não eram mais aqueles que vivam do trabalho de seus servos e muito ao contrário disso, eram dinâmicos e o crescimento dos bens de produção exigiam a formação de pessoas para trabalharem na indústria que se expandia.
Todo este processo chegou no século XX mais amadurecido e após a primeira grande guerra mundial, os países desenvolveram um sentimento nacionalista generalizado, indo em busca de reapropriarem-se de suas culturas, promovendo pesquisas folclóricas e o uso dele na obra de vários compositores, como podemos ver na obra de Villa Lobos, Bartok e também na pesquisa empreendida por Mário de Andrade aos sertões brasileiros em busca de uma identidade nacional.
A tendência vanguardista que rompia com padrões rígidos de criação artística e procurava uma vertente criadora mais livre surgiu internacionalmente nas artes plásticas e na literatura a partir do final do século XIX e início do século XX. Era uma reação às escolas artísticas do passado, trazendo como resultado o surgimento de novos movimentos artísticos, dentre eles o expressionismo, o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo e o futurismo.
No Brasil, o termo Modernismo identifica o movimento desencadeado pela Semana de Arte Moderna de 1922 (de 11 a 18 de fevereiro de 1922) através da realização de conferências, recitais de música, declamações de poesia e exposição de quadros, os quais aconteceram no Teatro Municipal de São Paulo, apresentando ao público as novas tendências das artes no país. Seus idealizadores rejeitavam a arte do século XIX e as influências estrangeiras do passado, defendendo a assimilação das tendências estéticas internacionais para mesclá-las com a cultura nacional, originando uma arte vinculada à realidade brasileira, à modernização das linguagens artísticas e a importância de dar-lhes um caráter nacional.
A partir da Semana de 22 surgem vários grupos e movimentos, os quais defendem ou criticam os princípios básicos do movimento modernista. Podemos destacar dentre eles o escritor Oswald de Andrade e a artista plástica Tarsila do Amaral que lançaram em 1925 o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, no qual se enfatiza a necessidade de criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção crítica da modernidade européia. Em 1928 levam essas idéias ao extremo com o Manifesto Antropofágico, o qual se propõe a "devorar" as influências estrangeiras para impor o caráter brasileiro à arte e à literatura. Por outro lado, numa vertente mais conservadora, encontramos o grupo da Anta, liderado pelo escritor Menotti del Picchia (1892-1988) e pelo poeta Cassiano Ricardo (1895-1974), que criam um movimento chamado de verde-amarelismo, fechando-se às vanguardas européias, aderem às idéias políticas que prenunciam o integralismo, versão brasileira do fascismo.
O movimento modernista teve seu início muito antes da Semana de 22. Uma das primeiras exposições de arte moderna no Brasil é realizada em 1913 pelo pintor de origem lituana Lasar Segall. Em 1917, Anita Malfatti realiza a que é considerada de fato a primeira mostra de arte moderna brasileira. Apresenta telas influenciadas pelo cubismo, expressionismo, e futurismo causando escândalo e ira da crítica especializada, ao mesmo tempo em que influencia a admiração dos artistas e intelectuais modernistas, que a colocam como seu estandarte.
Na Música, o modernismo dá prosseguimento às mudanças iniciadas com o impressionismo e o expressionismo, rompendo ainda mais com o sistema tonal. Os movimentos musicais modernistas são o dodecafonismo, o neoclassicismo e as escolas nacionais (que exploram o folclore de cada país), predominantes internacionalmente de 1910 a 1950. Heitor Villa-Lobos é o principal compositor no Brasil e consolida a linguagem musical nacionalista. Para dar às criações um caráter brasileiro, busca inspiração no folclore e incorpora elementos das melodias populares e indígenas. Nos anos 30 e 40, sua estética serve de modelo para compositores como Francisco Mignone (1897-1986), Lorenzo Fernandez (1897-1948), Radamés Gnattali (1906-1988) e Camargo Guarnieri (1907-1993).
Em 1931 Villa-Lobos dá inicio ao programa de educação musical planejado e em apenas cinco meses de trabalho, reuniu um coral com 13 mil vozes, composto por alunos de escolas primárias, secundárias e do Instituto de Educação e o Orfeão dos Professores. Para a realização do plano, foram criados o Curso de Pedagogia Musical e Canto Orfeônico, e o Orfeão de Professores, aos cuidados de Constança Teixeira Bastos, no ano de 1932.
Nesse mesmo ano, realiza uma série de concertos explicativos com música simples para os estudantes no Teatro Municipal, onde foi tocada a peça Caixinha de Boas Festas de Villa-Lobos, obra dedicada às crianças do Rio de Janeiro (Distrito Federal), e várias músicas corais para os operários cariocas.
A parte prática deste plano consistia no estudo do solfejo a várias vozes, ditado musical, rítmo, prática orfeônica e regência de grupos orfeônicos. A parte teórica consistia em história da música e da educação musical, folclore musical brasileiro, fisiologia da voz, noções de análise musical e estudo da teoria musical tal como deve ser aplicada nas escolas, de modo simples e recreativo. A orientação geral era ministrada por Villa-Lobos, que expunha aos alunos a finalidade educativa do canto orfeônico, os processos a serem empregados com as crianças, para aprimorar o espírito de disciplina, de solidariedade, de interesse pelas comemorações cívicas, organização de concentrações orfeônicas, métodos de trabalho para ensaios parciais e gerais, seleção das vozes infantis, disposição dos diversos grupos vocais nas salas de aula, ordem de entrada e saída nos auditórios , etc.
Nos dois primeiros anos os interessados no movimento orfeônico foram em número considerável. Foi necessário fazer a triagem em concurso para selecionar os mais credenciados. A essa altura, a metodologia do canto orfeônico havia superado o seu estágio experimental. Paralelamente ao canto coletivo, havia a prática instrumental de conjuntos em algumas escolas.
Villa-Lobos também compôs para os orfeões, uma obra numerosíssima, deve haver mais de 200 números de trabalhos desse gênero, quase todos elaborados com objetivo pedagógico, na fase de 1930 – 1945. O Guia prático apresenta temas folclóricos infantis, arranjados pelo mestre. Sendo considerada obra de destaque o Canto do Pajé (1933), sobre poema de Paula Barros, baseado na música primitiva do índio brasileiro, com fragmentos rítmicos de musica popular espanhola. Escrita para coro feminino a quatro vozes a cappella, é uma das realizações mais felizes no gênero, assim como Bazzum (1936), sobre poesia de Domingo Magarinos, para coro masculino a cinco vozes a cappella. Outra peça de considerável popularidade, As costureiras (1933), canção do gênero embolada para coro feminino a cappella.
As canções de cordialidade (1945), para coro misto a duas, três e quatro vozes, também orquestradas pelo autor, são cinco especialmente compostas por Villa-Lobos e Manuel Bandeira para combater a popularidade das canções comemorativas internacionais. Os títulos são: Feliz Aniversário, Boas Festas, Feliz Natal, Feliz Ano Novo e Boas Vindas, e tiveram por objetivo atingir as massas. Trata-se de canções singelas, pegajosas, de fácil apreensão, que visam substituir Happy Birthday, Stille Nacht, Heilige Nacht etc. As canções não tiveram a necessária publicidade e caíram paulatinamente no esquecimento.
Também em 1931, surge o primeiro grupo a harmonizar vozes com repertório de música popular brasileira, um conjunto vocal denominado Bando da Lua, o grupo era formado por Carmem Miranda, Aloysio de Oliveira, Hélio Jordão, Vadeco, Ivo Astolphi e Afonso Osório. Este grupo recebeu obteve grande reconhecimento em excusão nos Estados Unidos e na Argentina, fizeram oito filmes que Carmem Miranda protagonizou. Grupos como este foram surgindo ao longo do tempo e mantendo a tradição vocal, entre tantos e não mais marcantes estão os seguintes:
Os Cariocas, fundado em 1962;
MPB-4, fundado em 1962;
Quarteto em Cy, fundado em 1963;
Cobra Coral, fundado em 1976;
Boca Livre, fundado em 1978.
Em entrevista, a Maestrina Gisele Cruz, Coordenadora dos cursos vocais no SESC Vila Mariana, observa que a grande diferença entre os arranjos feitos para grupos de corais amadores e pequenos grupos vocais está na liberdade de abertura de vozes em relação ao quesito afinação e o uso de tessitura em regiões extremas da classificação vocal do cantor. Os grupos de corais amadores ou de pessoas iniciantes no uso da voz são naturalmente limitados, exigindo portanto, arranjos adequados que permitam o desenvolvimento da musicalidade de maneira prazerosa e sem ônus à saúde vocal dos cantores.
Segundo o arranjador do Garganta Profunda Marcos Leite, a escrita coral está de fato intimamente ligada à tradicional música erudita Européia, o que a torna asséptica e formal, tem como elemento predominante a polifonia. Já a escrita vocal é inspirada na música norte americana, tem movimentos paralelos em blocos e é baseada em melodias harmonizadas.
Em relação ao repertório arranjado para corais e pequenos grupos vocais, a partir de meados do Século XX, Marcos Leite menciona em um de seus livros de arranjos feitos para o Grupo Garganta Profunda, que acredita ter havido uma mudança comportamental que quebrara a concepção de sonoridade vocal impostada originada na europa. As transformações ocorridas teriam sido tão profundas que ele as comparou a uma crosta que chamou de conservadorista, que lhe tolhia o movimento. Ao livrar-se desta crosta o canto coral teria retomado o seu papel social de aproximar as pessoas e fazê-las musicar em comunidade com prazer e simplicidade.
Uma das causas desta revolução que atingiu a imagem e a sonoridade de uma das formações musicais mais antigas do mundo, teria sido a aproximação da música popular e a reapropriação das melodias folclóricas empreendidas por Villa-Lobos e seus contemporâneos. Eles iniciaram o projeto de se apropriarem da originalidade folclórica e transpô-la para a linguagem vocal, seus predecessores deram continuidade ao seu plano e hoje a música Brasileira ocupa um lugar de destaque diante do mundo na opinião de Marcos Leite.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marina...você se pintou Por Maurício Abdalla

Marina,... você se pintou? Maurício Abdalla [1] “Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo. Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias? Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que contr...

Caminheiro...caminhante

. Caminhante, caminheiro... Veja as núvens de promessas que se formam lá no cèu e que se transformam cada vez que a corrente de vento muda a direção... Cada vez que a vida diz não... Caminheiro errante acompanhando o vento que te leva pra cada vez mais distante desse porto de onde só se parte... Com a angústia de saber se  para sempre um cavaleiro errante... sina de violeiro que jamais se viu no espelho. Liebe